30 maio 2010

Rua da Saudade - Estrela da Tarde - Mafalda Arnauth



A saudade é um sonho acordado

Deitei-me sonhando...
abraçado à saudade
.....................
que teima em queimar
este meu peito
cor de sol
poente
.....................
Nasceu...
e crescendo
ganhou raízes
instalando-se
por todo meu corpo
respirado
.....................
e sonhando...
acordei
em novo amanhecer
com a saudade
a morder-me
os olhos
a dilatar-me as veias
e sair-me
pelos poros
.....................
inundando meu quarto...
em convulsões...
e lágrimas
de pranto

                                                                    afonso rocha

7 comentários:

Lídia Borges disse...

Boa tarde, Afonso!
Braga merece uma visita, sim.

Sobre a saudade:

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

-Álvaro de Campos (Ode Marítima)

Obrigada!

L.B.

Jean Valjean disse...

Que honra receber a visita de um poeta deste naipe, caro Afonso! Aos poucos, vou conhecer seus blogs, que, já num primeiro golpe de vista, agradam sobremaneira.
Saudações efusivas do Jean!

afonso rocha disse...

Qual quê. Poeta, eu???
Poeta era aquele ali de cima...um tal de Fernando Pessoa...que a Lídia trancreveu...
...e vocês, que já passaram à muito a fase de aprendizes de poetas...

Mesmo assim...
obrigado pelo elogio...
Jean...+ 1 abraç.

afonso rocha disse...

FERNANDO PESSOA...
e ARY DOS SANTOS....TAMBÉM!!!

Sandra Botelho disse...

Olá...
Vim retribuir a visita e dizer-te que seja bem vindo!
Amei a musica e são verdadeiras as palavras...
Saudade é fome que somente se mata comendo a presença.
Bjos achocolatados

tigusto disse...

Revisitar Ary dos Santos será sempre emocionante.
Afonso, não resisti à força destas palavras na forma escrita, que deixo a seguir, como que a acompanhar esse belo poema que nos ofereceste.
Por lapso deixei este comentário no blog da Sarah... ei-lo agora aqui! :-)
Abraço!

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

José Carlos Ary dos Santos

OutrosEncantos disse...

Só temos saudades do que foi bom!
Quando elas voltam a bater à porta, são instantes felizes a reviver :))

Beijooos!